Posts Tagged ‘Irã’

Irã e proliferação nuclear

terça-feira, março 9th, 2010

Lindo texto.

Irã e proliferação nuclear

A SECRETÁRIA de Estado dos EUA, Hillary Clinton, esteve no Brasil na semana passada para convencer nosso governo a apoiar novas sanções econômicas contra o Irã, mas não obteve êxito. Talvez porque os interesses do Brasil nesse caso não sejam os mesmos dos EUA, ou porque nossa avaliação do problema da proliferação nuclear seja diferente da americana.
Depois do Iraque e de suas armas de destruição em massa, o Irã se tornou “o grande problema” da política internacional, e os Estados Unidos e a Europa ameaçam esse país com novas sanções, porque estaria construindo capacidade nuclear. Tenho dúvidas de que seja essa a motivação principal contra o Irã, dada a “lógica” da política internacional americana desde o 11 de Setembro, mas não vou me ater a essa questão.
A pergunta mais importante é: será que o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares é tão relevante para a paz mundial? Há um pressuposto tácito entre os bem pensantes de todo o mundo de que o tratado é fundamental para a paz, de forma que ninguém se dispõe a discuti-lo, mas é preciso fazê-lo.
Dois são seus objetivos formais: impedir que novos países se tornem capazes de produzir armas atômicas e promover o desarmamento nuclear dos países potências nucleares. Entretanto, significativamente, nenhum desses dois objetivos definidos em 1970 está sendo cumprido. Depois do tratado, a Índia, o Paquistão, Israel e provavelmente a Coreia do Norte se tornaram potências nucleares. E não houve sanções maiores contra os três primeiros países. Por outro lado, não tenho notícia da redução que o tratado previa dos arsenais atômicos dos grandes países.
Embora isso não esteja escrito, o objetivo maior do tratado é impedir que “países irresponsáveis” se armem nuclearmente. É impossível não estar de acordo com essa ideia. Mas o que é um país responsável? Por que o Paquistão e Israel são responsáveis enquanto o Irã não é? Não tenho dúvida quanto ao perigo de um país como a Coreia do Norte, enquanto é difícil, para mim, ver mais perigo no Irã do que, por exemplo, no Paquistão. O Irã é um grande país, herdeiro de uma civilização milenar. Entre os países do Oriente Médio, só a Turquia se compara a ele em termos de desenvolvimento. E é um país que se sente gravemente ameaçado desde que realizou sua revolução nacionalista e islâmica, em 1979.
A questão da ameaça é importante. Os grandes países não cumpriram o tratado, não se desarmaram, porque isso não é do seu interesse nem, creio eu, do interesse do resto do mundo. Ainda que haja outras razões para a paz mundial existente entre os grandes países desde 1945, a “détente” nuclear continua a ser uma delas. Nenhum país ousa atacar outro que tenha força nuclear. Ora, se a posse de armas atômicas é uma boa razão para a Rússia ou a para China não atacarem os EUA e vice-versa, por que não seria também uma boa razão para Israel não atacar o Irã e vice-versa? Os israelenses não tiveram dúvida quanto a essa questão. Por que os iranianos teriam menos legitimidade em ter a mesma opinião?
As armas nucleares são um perigo para todo o mundo, mas são também uma razão para que potências nucleares não façam mais guerras entre si. Não vivemos no mundo perfeito dos nossos sonhos, mas isso não se deve à existência de armas nucleares. O mundo tem problemas muito mais graves do que a eventual entrada do Irã no clube das potências nucleares. Vamos tratar desses problemas e deixar o Irã em paz.


LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de “Globalização e Competição”.
Internet: www.bresserpereira.org.br

Está bom ou quer mais?

quinta-feira, março 4th, 2010

Sim, eles querem mais.

Para quem estava se perguntando porque o Brasil está batendo o pé com relação a defesa do Irã, leia abaixo alguns bons motivos.

Reportagem da Folha de SP (03/03/10)

Exportações ao Irã crescem 76% Apesar da expansão no 1º bimestre do ano, país islâmico compra só 1% das exportações brasileiras

Setor agropecuário puxa a expansão, e Irã deve se tornar neste ano o segundo maior importador de carne bovina “in natura” do país

MAURO ZAFALON
DA REDAÇÃO

O estreitamento de relações políticas entre Brasil e Irã começa a dar resultados comerciais. Num momento em que o governo Lula apoia Teerã em meio à pressão mundial para o isolamento do país islâmico devido ao seu programa nuclear, as exportações brasileiras ao Irã cresceram 76% no primeiro bimestre deste ano em relação a igual período do ano passado.
No bimestre, os iranianos já gastaram US$ 217,7 milhões com compras no Brasil, deixando um superavit de US$ 215 milhões para os brasileiros.
Fábio Faria, diretor de planejamento da Secretaria de Comércio Exterior, diz que ainda há espaço para crescimento. Os iranianos receberam reforço de caixa com a recuperação dos preços do petróleo e poderão importar mais, diz ele. Hoje, a participação iraniana é de só 1% das exportações brasileiras.
As compras dos iranianos têm foco forte no agronegócio, principalmente em carnes, milho, açúcar e soja. O rol de exportações do Brasil inclui, ainda, chassi para veículos, motores elétricos, reatores e papel.
O Irã deve se consolidar como o segundo maior importador de carne bovina “in natura” do Brasil neste ano, superando mercados tradicionais como Hong Kong, Venezuela e Egito. As exportações do produto ao Irã em janeiro somaram 15,6 mil toneladas e superaram em 106% as de igual mês de 2009.
O interesse iraniano se estende também ao frango. Embora o país seja grande produtor, o consumo per capita dessa proteína subiu de 18 kg em 2004 para 24,1 kg neste ano.
A Folha apurou que a ordem que vem do Irã é para que os representantes comerciais do país aumentem as compras por aqui. Com isso, os brasileiros esperam colocar 220 mil toneladas de carne bovina “in natura” no país. Se confirmadas, essas exportações superarão em 68% as de 2009 e em 169% as de 2006. Otávio Cançado, diretor-executivo da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), diz que o Brasil tem, no momento, 40 frigoríficos produzindo carne bovina para os iranianos.

Rituais
A carne enviada àquele país tem de seguir os rituais islâmicos. Um veterinário, um degolador e um religioso, todos enviados pelo Irã, conferem se o abate segue as exigências religiosas, diz o diretor da Abiec.
A participação iraniana no mercado brasileiro é importante principalmente porque as importações são de carne “in natura”, com maior valor agregado. Enquanto a Rússia, o líder nas importações de carne brasileira, pagou US$ 2.967 por tonelada de carne em janeiro, os iranianos pagaram US$ 3.926 por tonelada.

Frango
O setor de frango também espera aumento das exportações. “O problema é que essas compras são sazonais, mas há uma vontade crescente de elevar os negócios por parte do Irã”, diz Ricardo Santin, diretor-executivo da Abef (Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frangos). Em busca de uma expansão das vendas no mercado iraniano, a indústria brasileira enviará uma missão comercial ao país nas próximas semanas, segundo Santin.
A intenção de compra dos iranianos ficou evidente para os brasileiros em uma feira de alimentação realizada em Dubai (Emirados Árabes) no mês passado, quando a busca de negócios foi grande, segundo os participantes do evento.