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Anacronismo americano

segunda-feira, maio 3rd, 2010

Anacronismo americano
CESAR BENJAMIN

O DEBATE sobre a política cambial chinesa se intensificou desde que 130 congressistas solicitaram que o governo americano declare, em relatório oficial, que a China manipula o valor da sua moeda, produzindo uma concorrência desleal que prejudica empresas e elimina empregos nos EUA. Se a solicitação for aceita, estará aberto o caminho legal para medidas de retaliação que podem gerar mais incerteza econômica em um mundo já bastante estressado. Estão em curso negociações delicadas.
A mania dos EUA de produzir relatórios unilaterais que colocam outros países no banco dos réus já criou grande número de situações ridículas, que agora podem se repetir. Os americanos deveriam ser os últimos a tocar no assunto de manipulação cambial, pois são os únicos que arbitram praticamente sem restrições o valor da sua moeda, emitida a rodo para financiar deficit que têm enorme impacto sobre todo o sistema internacional.
Os demais países têm reagido de diferentes maneiras à hegemonia desse dólar errante. Alguns, como o Brasil, liberaram a movimentação de capitais e entregaram a um mercado intrinsecamente especulativo a tarefa de fixar o valor de suas moedas, mesmo à custa de remessas crescentes e de danos aos sistemas produtivos locais. Outros, como a China, promovem uma abertura cautelosa e ordenada: sua moeda acompanha a trajetória da moeda de referência internacional, sem experimentar flutuações bruscas e sem gerar um desalinhamento cambial que comprometa o crescimento do país.
Não há movimentações especulativas de riqueza financeira na economia chinesa. E os recursos em moeda estrangeira, provenientes de exportações e de investimentos, são obrigatoriamente vendidos ao governo, que os paga em yuan, a uma taxa fixada pelo banco central. Por isso o yuan não se aprecia, gerando protestos.
A contrapartida chinesa ao sistema internacional é considerável. O país é, também, um grande importador. Suas reservas, atualmente de US$ 2,4 trilhões, são investidas, em grande parte, em títulos americanos de longo prazo, garantindo que os EUA se financiem com baixas taxas de juros. Mais de 70% das suas exportações são produzidas por companhias estrangeiras ou joint ventures.
E, por causa da integração das cadeias produtivas, a produção “made in China” movimenta todas as economias do Leste da Ásia, incluindo aliados importantes dos EUA, como Japão, Coreia do Sul, Cingapura e até mesmo Taiwan.
Estamos diante de uma disputa de novo tipo pela hegemonia, diferente dos confrontos diretos do século 20. A competição convive com uma intricada teia de interesses complementares, que ainda predominam.
Os EUA não podem ameaçar todo esse arranjo, do qual também dependem. Parecem ter dificuldades em se reposicionar. Os políticos insistem em explicações fáceis para o eleitorado, enquanto o governo mantém em vigor medidas anacrônicas. Adota, por exemplo, uma política comercial altamente discriminatória, que proíbe a venda de produtos de alta tecnologia ao país asiático.
Ao decidirem exportar para a China apenas produtos industriais comuns e bens agrícolas, os EUA abrem mão da sua maior vantagem e se condenam a ter grandes deficit.
A avareza da política comercial americana, além de anacrônica, é cada vez mais inócua: neste ano, a China ultrapassará os EUA na formação de doutores em ciências e nas engenharias. Parece que o pensamento chinês se adapta melhor a esse jogo complexo em que o tempo é um fator decisivo.

Câmbio

quinta-feira, abril 1st, 2010

Compartilho dois excelentes textos da Folha de São Paulo.

Primeiro do Delfim Neto

Ainda o câmbio

O PROFESSOR CARLOS Antonio Rocca apresentou no Centro de Estudos de Mercado de Capitais, do IBMEC (em março deste ano), um interessantíssimo trabalho, com o título “Fatores da Taxa de Câmbio do Real: Uma análise Estatística”. Nele, revela, como de costume, a sua integridade intelectual, a sua competência técnica, o seu pragmatismo e a sua cuidadosa modéstia nas conclusões.
Apenas para dar um exemplo das dificuldades de tais estudos, tomemos a moeda chinesa, o yuan. Há uma convicção generalizada, formada a partir de trabalhos com modelos apriorísticos e do uso de econometria sofisticada, de que ele está fortemente desvalorizado, o que facilitaria a invasão das exportações chinesas. Nos EUA, o Congresso, para atender à fúria dos sindicatos num ano eleitoral, está forçando Obama a declarar que a China “manipula” o seu câmbio.
Ocorre que a dúvida é geral. Basta dizer que a Goldman Sachs, cujo conhecimento dos mercados e competência são comprovados, estimou as taxas cambiais (”BRICs Monthly”, 10/02, March 16, 2010) e concluiu que “o yuan, contrário à crença popular, não parece subvalorizado contra o dólar”! Quanto ao Brasil, diz o mesmo documento: “O real é uma das moedas mais sobrevalorizadas dos emergentes (cerca de 40%)”.
O trabalho do professor Rocca não se aventura na tentativa de estimar a sobrevalorização do real. O seu objetivo secundário é tentar encontrar quais são as variáveis que provavelmente “explicam” a formação da taxa de câmbio real/ dólar e tentar medir a importância de cada uma delas. E, a partir do modelo, atingir seu objetivo principal: tentar medir o efeito da imposição do IOF de 2% sobre os investimentos estrangeiros.
O trabalho testa oito especificações e seleciona duas “melhores”, que “explicam” mais de 3/4 das variações da taxa de câmbio real/dólar: 1) o próprio valor do dólar em relação a uma cesta de moeda; 2) o diferencial de juros EUA x Brasil; e 3), alternativamente, ou os investimentos na conta financeira total, ou os investimentos em carteira.
Em relação ao seu objetivo principal (o possível efeito do IOF), o trabalho afirma: “Não há razão para acreditar que a tributação do IOF sobre os investimentos estrangeiros em carteira tenha sido eficaz para reverter a tendência de valorização do real”.
Em relação ao seu objetivo secundário (o que “explica” a taxa de câmbio), a conclusão é que “a principal variável doméstica na determinação da taxa de câmbio é o diferencial das taxas de juros Brasil x EUA”. Logo, “ações voltadas para a redução sustentável dessa taxa são mais eficazes para evitar a valorização efetiva do real”.

Segundo texto é de autoria de Alexandre Schwartsman

Síndrome da China

PARA QUEM acha que o debate sobre taxa de câmbio no Brasil é agressivo, a versão chinesa é, no mínimo, selvagem. Há pressões americanas pela revalorização do yuan, e mesmo autoridades chinesas, preocupadas com os riscos crescentes de inflação, parecem considerar de forma cada vez mais concreta a conveniência de retomar a trajetória de apreciação contínua que prevaleceu entre 2005 e 2008.
Aliás, se não fosse a atitude americana, minha impressão é que a China estaria realmente muito próxima de alterar sua política (não seu regime) cambial, permitindo a apreciação da sua moeda.
Se isso for verdade, quais seriam as implicações para o Brasil? Apesar do peso maior da China em nosso comércio internacional (destino de 13% de nossas exportações), acredito que o canal mais importante de transmissão de uma eventual apreciação do yuan se daria por meio dos preços de commodities e, portanto, dos termos de troca.
Para entender esse processo, considere o seguinte exemplo. Imagine que haja só dois países no mundo, China e Resto, comercializando entre si uma commodity (petróleo). Há também duas moedas, o yuan (CNY) e o dólar (USD), trocados a uma taxa fixa de dois yuan por dólar. O preço do petróleo corresponde a USD 100/barril, ou seja, CNY 200/ barril na China, e presumimos que, a esse preço, tanto a demanda chinesa quanto a do Resto sejam plenamente satisfeitas.
Suponha agora que a taxa de câmbio se altere, de modo que a moeda chinesa se valorize e seja necessário apenas 1,5 yuan para adquirir um dólar. Caso o preço do petróleo continue a USD 100/barril, o preço na China cairia para CNY 150/barril, mas um pouco de reflexão sugere que essa situação não seria estável. De fato, a CNY 150/barril, a quantidade demandada na China teria que aumentar, pois o petróleo ficou mais barato para o consumidor chinês. Por outro lado, com o preço em dólares a USD 100/barril, não há redução na quantidade demandada pelos consumidores de Resto, o que configuraria uma situação de excesso de demanda por petróleo.
Diante do excesso de demanda, o preço do petróleo em dólares teria que subir, digamos para USD 120/ barril, reduzindo a quantidade demandada pelo Resto (bem como a quantidade demandada na China sob a nova taxa de câmbio, que, ainda assim, permaneceria acima da quantidade demandada antes da mudança cambial), reequilibrando o mercado internacional.
O exemplo é, obviamente, muito simplificado, mas captura parte essencial do processo, qual seja, que a apreciação da moeda chinesa tende a elevar os preços em dólar de commodities. A bem da verdade, a evidência empírica sugere que o enfraquecimento do dólar (fortalecimento do yuan) é fortemente associado a preços de commodities (em dólares) mais elevados.
O Brasil, como exportador de commodities, naturalmente se beneficiaria de um aumento de seu preço em dólares. É claro que o país também as importa, mas, no balanço geral, observamos que preços mais altos de commodities se traduzem em melhora de termos de troca para o Brasil, isto é, o preço dos produtos exportados tende a crescer relativamente ao preço dos bens importados, permitindo que cada unidade exportada compre mais importações.
Num contexto de demanda doméstica crescendo mais rápido que o produto (10% ao ano ante 7% ao ano nos últimos três trimestres), pois, a revalorização do yuan seria um presente para o país. Não resolveria (como no passado não resolveu) o descompasso entre demanda e oferta domésticas, mas mitigaria bastante a pressão sobre o balanço de pagamentos.

Você pode ler mais textos do Alexandre aqui .

E a China hein?

segunda-feira, março 1st, 2010

Acabo de ler um texto bem interessante sobre a China e quero compartilhar .

Será que a China vai se redimir?

Jonathan Porritt

O resultado da conferência climática de Copenhague ainda repercute em todo o mundo. E não são apenas as ONGs e os acadêmicos que estão irritados – muitos governos também se mostraram frustrados com os resultados. E a maioria das pessoas concorda que a China é o principal vilão.

Na conferência, a China lutou furiosamente para impedir qualquer acordo global de transparência em relação às emissões de carbono. Ao manipular seu papel como suposta defensora dos países pobres, a China elaborou uma versão tão enfraquecida do acordo que a plenária final da conferência conseguiu apenas “mencionar” sua existência, em vez de endossá-la. Talvez mais preocupante que isso tenha sido a recusa chinesa em permitir a inclusão de metas de longo prazo no acordo – mesmo aquelas que já haviam sido aceitas pelos EUA e a UE. A China, segundo foi dito, mobilizou-se para proteger sua posição futura como maior economia do mundo.

É difícil conciliar tudo isso com a ideia de que a China está buscando a sustentabilidade. Durante os últimos anos, a mídia ocidental enfatizou o recente entusiasmo do país pelo meio ambiente. Seu pacote de estímulo de 2009, por exemplo, é considerado um dos mais verdes do mundo, e o HSBC estima que 40% dos US$ 600 bilhões (R$ 1,8 trilhão) alocados pelo país têm algum benefício para a sustentabilidade. Então, qual é a verdadeira China?

China poluidora ou China verde?
Na China, a lista de calamidades ambientais é longa. O câncer é hoje a principal causa de morte – matando 80% mais pessoas do que há 30 anos. Alguns tipos de câncer, como o de pulmão, fígado e estômago, têm sido relacionados aos altos níveis de poluição no ar e na água. Isso não é uma surpresa, considerando que cerca de 3.600 quilômetros quadrados de terra se transformam em deserto todos os anos, principalmente por causa do excesso de pastagens, e que tempestades de areia severas costumam atrapalhar a vida nas cidades. Os níveis de água estão caindo em todo o país. E há dezenas de milhares de protestos civis todos os anos contra a devastação ambiental.

Os líderes da China não pensam em se desculpar. O país tem uma economia que busca o crescimento antes de mais nada – e quem é capaz de argumentar contra o objetivo de eliminar a extrema pobreza e melhorar o padrão de vida do resto da população? Mas a destruição do capital natural da China é tão profunda que a viabilidade de seu modelo econômico está agora em risco.

Os chineses estão conscientes do perigo. A maioria dos observadores da China argumenta que, apesar do comportamento do país em Copenhague, suas lideranças têm uma compreensão sofisticada do impacto da mudança climática e da ameaça que ela representa à sua prosperidade. Longe de negar tudo isso, os líderes da China têm a intenção de desenvolver um caminho pioneiro em direção a uma economia de baixas emissões. Há duas principais frentes: tornar mais sustentável a infraestrutura já existente e construir novas indústrias baseadas em tecnologias sustentáveis. O objetivo é transformar a China numa “oficina verde para o mundo”, garantindo, no processo, empregos muito mais especializados e com maior valor agregado.

Nenhuma dessas melhorias à infraestrutura existente, entretanto, transformará a China numa economia de baixas emissões. É necessário algo mais radical, e a solução está num caminho paralelo, que inclui tanto a energia renovável quanto a nuclear , além de outras tecnologias verdes.

A revolução da energia renovável
O objetivo do país é gerar 15% de sua energia a partir de fontes renováveis até 2020. A China tem uma situação ideal para explorar a energia eólica tanto no mar quanto em terra, mas outras tecnologias também estão sendo expandidas. A meta de energia solar para 2020 é de 9 mil megawatts de capacidade – 75 vezes mais do que sua pequena produção de 120 megawatts. Em outros locais, fontes de biomassa, hidrelétricas e geotérmicas também deverão receber grandes investimentos. O HSBC estima que a o mercado potencial de energia renovável em 2020 deverá chegar a US$ 2 trilhões, e a China está concentrada tanto nesses mercados internacionais quanto em seu próprio desafio energético.

A sustentabilidade é mais fácil para as autocracias
Embora seja difícil comentar o assunto, a falta de democracia na China dá ao país uma vantagem significativa em sua revolução sustentável. É muito mais fácil planejar na China; as autoridades não têm problemas para decidir onde colocarão uma fazenda de moinhos de vento. E planejar a longo prazo, para os próximos 40 ou 50 anos, é muito mais fácil quando não há uma eleição à frente.

Mas, é claro, nada é tão simples. As ordens de Beijing são com frequência ignoradas no nível local. Reverter a terrível força da economia industrial está se mostrando um imenso desafio. Além disso, os políticos da China não podem simplesmente ignorar a opinião pública. A classe média chinesa não quer descer um degrau na escada do consumo depois de ter acabado de colocar os pés sobre ela, e os pobres ainda esperam que o governo os coloquem nela rapidamente. Os líderes temem que a população se irrite quanto aos assuntos econômicos mais do que em relação a qualquer tema ambiental.

O primeiro teste real será o próximo plano da China para os próximos cinco anos, de 2011 a 2015. Em novembro de 2009, o Conselho Chinês para a Cooperação Internacional em Meio Ambiente e Desenvolvimento apresentou ao premiê Wen Jiabao um projeto de baixas emissões para inclusão no plano. Um de seus cenários é um projeto que muda pouco os negócios e enfatiza a prosperidade, resultando em emissões de 13 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano em 2050. Há também um “cenário aprimorado de baixas emissões” segundo o qual elas atingiriam seu pico em 2025 e depois seriam reduzidas para 5 bilhões de toneladas por ano em 2050.

Entre esses dois cenários, e os 8 bilhões de toneladas por ano que os separam, está o futuro da civilização humana. Resumindo, não haverá um futuro sustentável e justo para a humanidade a menos que a China o torne possível.

(Jonathon Porritt é diretor fundador do Fórum para o Futuro e autor de “Capitalism as If the World Matters: Revised Edition 2007”).

Tradução: Eloise De Vylder