Archive for abril, 2009

Donos de carro de luxo têm bolsa do ProUni

quinta-feira, abril 23rd, 2009

A matéria extraída da Folha de São Paulo não era novidade para mim, eu não consegui o PROUNI e o que me deixava mais inconformado era ver esse tipo de irregularidade.

Donos de carro de luxo têm bolsa do ProUni

Auditoria feita pelo TCU aponta indícios de irregularidade em mais de 30 mil bolsas, cerca de 8% do total de 385 mil beneficiários

Cruzamento de dados mostra que mais de mil bolsistas são proprietários de veículos novos; tribunal pede maior controle do MEC

MARTA SALOMON DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Embora se destinem apenas a jovens com renda mensal de até um salário mínimo e meio (R$ 697,50) por pessoa da família, bolsas integrais do ProUni (Programa Universidade para Todos) foram concedidas a mais de mil proprietários de carros novos, entre eles modelos de luxo, como Honda Civic, Toyota Hilux, Ford Fusion, Vectra, Zafira, Mitsubishi Pajero e o XTerra da Nissan.

A irregularidade, que alcança uma fatia de 0,6% dos beneficiários de bolsas integrais, foi detectada por auditores do TCU (Tribunal de Contas da União) ao cruzarem a lista de beneficiários do ProUni com os cadastros do Renavam, o registro nacional de veículos.

Com base no cruzamento com outros cadastros oficiais, foram identificados indícios de irregularidades que envolvem 30.627 bolsistas, ou 8% do total de 385 mil beneficiários.

O relatório da primeira auditoria no programa, a que a Folha teve acesso, foi aprovado ontem pelo tribunal, com recomendações ao Ministério da Educação de maior controle na concessão de bolsas e mudança no cálculo do incentivo fiscal. O TCU fez a auditoria por iniciativa própria. Uma avaliação do MEC, que teve acesso ao relatório, foi anexada à auditoria. As regras do ProUni preveem a seleção dos estudantes pelo perfil socioeconômico informado pelos candidatos do Enem (Exame Nacional de Ensino Médio) no ato da inscrição. Cabe às instituições de ensino aferir as informações. As falhas na comprovação desses dados foram consideradas “graves” pelo TCU.

O ProUni custará aos cofres públicos neste ano R$ 394 milhões em renúncias fiscais, segundo estimativa da Receita Federal. Esse é o valor dos tributos que deixam de ser cobrados de instituições privadas de ensino e não inclui as instituições beneficentes, que já contavam com incentivos fiscais antes do programa, lançado em 2005, com o objetivo de aumentar o acesso de jovens ao ensino superior.

O Renavam contém 57.850 veículos registrados em nome de bolsistas. Esse número inclui os donos de motos (41% do total). Entre os automóveis, a maioria tem mais de dez anos de uso. Mas passa de mil o número de carros fabricados entre 2005 e 2008 registrados em nome de bolsistas integrais.

Há modelos cuja posse é incompatível com as regras de acesso às bolsas do ProUni. O MEC contabilizou 39 modelos de luxo na lista do TCU.

No caso das bolsas parciais, o candidato deve ter renda per capita de, no máximo, três salários mínimos (R$ 1.395,00). Entre os bolsistas parciais, o TCU encontrou 700 proprietários de veículos novos.

As irregularidades não se limitam aos proprietários de veículos caros. Ao cruzar os nomes dos beneficiários com informações da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério do Trabalho, os auditores do TCU identificaram bolsistas com renda anual acima de R$ 200 mil.

Dos 385 mil beneficiários do ProUni, cerca de 126 mil estão nos arquivos da Rais.

“Foi identificado que quase 24% dos alunos [que aparecem na Rais] declararam renda menor, ou muito menor”, relata o ministro José Jorge, do TCU, no documento levado ao plenário do tribunal ontem.

A favela no limite

terça-feira, abril 21st, 2009

O texto abaixo foi retirado do site da revista VEJA ( http://veja.abril.uol.com.br ). O tema é o muro que a prefeitura de RJ está construindo para impedir o avanço das favelas em áreas verdes e de risco. Muito se foi questionado sobre a posição do Governo, diversos jornais do mundo falaram sobre, mas o fato é que realmente isso é necessário.
Abaixo há uma pesquisa feita pelo Instituto Pereira Passos ( IPP ) dizendo que os cariocas entenderam bem a posição governo.
A verdade é que os políticos deixaram realmente acordaram para o fato que não há controle sobre o crescimento das favelas e estão tomando providências. Mas não adianta nada fazer um muro sem ter fiscalização, na Rocinha já tem muitos barracos fora do limite decretado. O muro é um passo dado e tem um longo caminho pela frente como, por exemplo, dar boas condições de vida a pessoas que moram em favelas, posso citar saneamento básico, energia elétrica, coleta de lixo, água, etc.
É uma boa matéria e que me chamou a atenção que quero compartilhar com vocês.

A favela no limite

O Rio de Janeiro começa a erguer muros para evitar que os barracos continuem avançando sobre as áreas verdes. Pode ser o sinal de que, finalmente, o poder público resolveu deixar a demagogia de lado e combater com seriedade o processo de favelização.

Feita no alto do Morro Dona Marta, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, ela retrata uma radical mudança de atitude do poder público em relação às favelas. O governo do estado decidiu erguer muros de 3 metros de altura para impedir que os barracos avancem em direção à mata ou se dependurem em áreas de risco. Não demorou para que a iniciativa fosse crivada de críticas, dando conta de que a intenção das autoridades só poderia ser segregar os pobres. O caso ganhou repercussão internacional. Surgiram comparações com o Muro de Berlim e o da Palestina, para ficar em apenas dois exemplos citados em seu blog pelo escritor português José Saramago. E disseminou-se a ideia estapafúrdia de que as favelas seriam integralmente cercadas, ganhando feições de cidadela medieval. O suplemento de turismo do jornal espanhol El País chegou a publicar que os muros têm por objetivo esconder as favelas, e uma jornalista francesa procurou assessores do governo para saber que tamanho teriam os portões de acesso aos morros. Houve quem se preocupasse com o aspecto mais formal da história, defendendo a substituição dos muros por cercas vivas, e estabeleceu-se uma celeuma em torno de que espécie de planta seria mais adequada para essa finalidade. Nesse campo fértil para desvarios, a discussão ganhou um viés ideológico que desviou a questão de seu foco principal: a necessidade de conter o avanço das favelas.

Os que são contrários à ideia lembram que as favelas, principalmente as da Zona Sul, crescem pouco para os lados. A maior expansão dá-se verticalmente – há edifícios de mais de dez pavimentos em algumas delas. As que foram selecionadas para o projeto realmente aumentaram muito pouco sua área. Avançaram apenas 1,18% entre 1999 e 2008, segundo o Instituto Pereira Passos (IPP), ligado à prefeitura do Rio. O que não se leva em conta nesse raciocínio é que essa expansão ocorreu em favelas enormes, infladas por anos de descaso. E que qualquer crescimento é prejudicial à cidade. “A sensação de expansão da desordem produz um prejuízo gigantesco para o Rio. O fato de a favela estar avançando causa insegurança e desvaloriza o patrimônio da cidade como um todo”, avalia o economista Sérgio Besserman, ex-presidente do IPP. Não se trata, portanto, de ser contra ou a favor do muro em si. É óbvio que seria muito melhor se ele não fosse necessário, assim como é óbvio que, se não houver fiscalização, nenhuma barreira física impedirá novas invasões. O que o muro simboliza é a decisão de encarar com a devida seriedade o problema das favelas.

Pesquisa do instituto Datafolha divulgada na semana passada mostrou que os cariocas entenderam muito bem a ideia central da empreitada. A maioria (60%) não caiu na esparrela de que o objetivo do muro é separar ricos e pobres. E 51% dos entrevistados de menor poder aquisitivo aprovam o muro, enquanto no resultado geral 47% são a favor do projeto e 44% contra – um empate técnico, em razão da margem de erro. Na primeira etapa do projeto, estão previstos 14,6 quilômetros de muro – pouco mais que a extensão da Ponte Rio-Niterói – e serão contempladas treze favelas. Os paredões seguirão o mesmo traçado dos chamados ecolimites, definidos há quinze anos. Em favelas como a Rocinha, eles foram solenemente ignorados. Existem mais de 400 barracos fora da cerca que demarca os ecolimites, num desrespeito que prejudica não só o meio ambiente, mas também a qualidade de vida dos moradores. Não há como planejar saneamento, abastecimento de água, fornecimento de energia ou dimensionar a coleta de lixo se os barracos continuarem se alastrando.

Esta não é a primeira vez que se fala em murar as favelas do Rio. Em 2004, após uma guerra entre traficantes na Rocinha, o então vice-governador Luiz Paulo Conde defendeu a construção de paredões de 3 metros de altura em quatro favelas. O objetivo era proteger o meio ambiente e evitar que bandidos fugissem pela mata durante as ações policiais. Enfraquecido pelas críticas que recebeu, Conde recuou. Se tivesse levado o plano adiante, talvez os 89 barracos que naquela época ultrapassavam os ecolimites da Rocinha não tivessem chegado aos 415 de hoje. Outros governantes nem sequer tentaram conter o avanço. Ao contrário, por décadas o que houve foi estímulo à ocupação irregular da cidade. Esse ciclo perverso se acentuou nos anos 80, principalmente a partir da gestão Leonel Brizola, que defendeu a manutenção dos barracos e concedeu indistintamente títulos de propriedade a favelados, numa política movida pelo espírito nefasto de que favela não é problema, é solução. A partir daí, a favelização ganhou tamanho impulso que se transformou num negócio lucrativo para aproveitadores em geral e políticos em particular. Tal negócio se baseia numa lógica cruel, que mantém a população na miséria e rende dividendos aos espertalhões. Os políticos fazem questão de manter serviços públicos precários ali, porque montam centros assistencialistas e ganham votos. E os “donos” das favelas – que podem ser traficantes ou grupos chamados de milícias – se valem de seu poder de fogo para praticar toda sorte de ilegalidades e manter os moradores sob seu domínio.

O comportamento irresponsável dos governantes tem sido motivo de queixas ouvidas pelo prefeito da cidade, Eduardo Paes. Segundo ele, moradores de bairros contíguos aos morros reclamam que o poder público historicamente faz melhorias em favelas e negligencia a cidade que paga impostos. “Com isso, áreas degradadas avançam sobre o tecido urbano consolidado e o destroem. É preciso inverter esse fluxo, fazer com que a ordem existente na cidade formal se estenda às favelas”, diz. Esse quadro só será mudado quando essas áreas estiverem sujeitas às mesmas regras que valem para o restante da cidade. Integrar as favelas, portanto, é um desafio que passa pelo estabelecimento de normas. Para se ter uma ideia do trabalho que há pela frente, apenas 23 das quase 1000 favelas do Rio têm regras para construção estabelecidas pela prefeitura. Felizmente, parece ter chegado a hora de começar a mudar essa triste realidade. Tanto a prefeitura do Rio quanto o governo estadual vêm demonstrando coragem para enfrentar sem demagogia o grave problema das favelas. Diz o governador Sérgio Cabral: “Esse é o muro da inclusão, e não da segregação. Ele significa o fim da omissão do poder público”.

A verdadeira história do massacre de Columbine

quarta-feira, abril 15th, 2009

Acabo de ler uma reportagem vinda do USA TODAY sobre o massacre de Columbine. Este tipo de assunto realmente me intriga, comportamento humano é algo incrível, sendo assim compartilho com vocês:

A verdadeira história do massacre de Columbine

Eles não eram góticos ou solitários.
Os dois adolescentes que mataram 13 pessoas e a si mesmos no suburbano colégio Columbine de Denver, há 10 anos na próxima semana, não faziam parte da “Máfia do Sobretudo”, não eram jogadores de videogame desafeiçoados que vestiam casacos de caubói. O massacre provocou um debate nacional sobre intimidação, mas agora foi mostrado que Eric Harris e Dylan Klebold não foram intimidados -na verdade, eles se gabavam nos diários de intimidarem calouros e “viados”.
O ataque deles colocou as escolas em alerta às “listas de inimigos” feitas por estudantes perturbados, mas os inimigos na lista deles tinham se formado em Columbine um ano antes. Diferente dos primeiros relatos, Harris e Klebold não estavam tomando antidepressivos e não visaram atletas, negros ou cristãos, diz agora a polícia, citando os diários dos assassinos e relatos das testemunhas. Aquela história sobre uma estudante sendo baleada na cabeça após dizer que acreditava em Deus? Nunca aconteceu, diz agora o FBI.
Uma década após Harris e Klebold terem transformado Columbine em sinônimo de raiva, novas informações -incluindo vários livros que analisam a tragédia por meio de diários, e-mails, agendas, fitas de vídeo, relatórios policiais e entrevistas com testemunhas, amigos e sobreviventes- indicam.

Na verdade, o ataque suicida da dupla foi planejado como um grande atentado terrorista a bomba -apesar de mal executado- que rapidamente se transformou em um tiroteio de 49 minutos quando as bombas fabricadas por Harris falharam.

“A fiação das bombas que ele fez era tão ruim que, aparentemente, nunca estiveram nem próximas de funcionar”, disse Dave Cullen, autor de “Columbine”, um novo relato sobre o ataque.

Então, quem eles esperavam matar?
Todo mundo -inclusive os amigos.
O que restou, após a remoção de uma década de mitos, talvez seja mais reconfortante do que a narrativa “bons garotos intimidados até retaliarem” -ou talvez não.
É um retrato de Harris e Klebold como uma espécie de dupla criminosa de “A Sangue Frio” -uma dupla profundamente perturbada, suicida, que por mais de um ano incitava um ao outro a realizar um atentado terrorista ao estilo de Oklahoma, uma fantasia de vingança extravagante, apolítica, contra anos de desdém, desfeitas e crueldades, reais e imaginadas.
Ao longo do caminho, eles economizaram dinheiro de empregos após a escola, frequentaram aulas de Advanced Placement (cursos de nível universitário), reuniram um pequeno arsenal e enganaram todos -amigos, pais, professores, psicólogos, policiais e juízes.
“Não eram garotos comuns que foram importunados até retaliarem”, escreveu o psicólogo Peter Langman em seu novo livro, “Why Kids Kill: Inside the Minds of School Shooters”. “Não eram garotos comuns que jogaram videogame demais. Não eram garotos comuns que apenas queriam ser famosos. Eles simplesmente ‘não eram garotos comuns’. Eram garotos com problemas psicológicos sérios.”

Enganando os adultos
Harris, que concebeu os ataques, era mais do que apenas perturbado. Ele era, dizem agora os psicólogos, um psicopata predador, de sangue frio -um mentiroso inteligente e charmoso com “um ridiculamente grande complexo de superioridade, repulsa por autoridade e uma enorme necessidade por controle”, como escreveu Cullen.
Harris, um aluno do último ano, lia vorazmente e conseguia boas notas quando queria, agradando seus professores com uma prosa deslumbrante -e então escrevendo em seu diário sobre matar milhares.
“Eu me referia a ele como o Eddie Haskel do colégio Columbine”, disse o diretor Frank DeAngelis, se referindo ao adolescente enganadoramente educado da série dos anos 50 e 60 “Leave it to Beaver”. “Ele era o tipo de garoto que, quando estava diante dos adultos, dizia o que você queria ouvir.” Quando não estava, ele misturava napalm na cozinha.
Segundo Cullen, um dos últimos textos escritos no diário de Harris dizia: “Eu odeio vocês por me deixarem de fora de tantas coisas divertidas. E não diga, ‘Ora, é culpa sua’, porque não é, vocês tinham meu telefone, e eu pedi e tudo mais, mas não. Não, não, não deixem aquele estranho do Eric vir junto”.
Enquanto caminhava para a escola na manhã de 20 de abril, Harris vestia uma camiseta que dizia “Seleção Natural”.
Klebold, por outro lado, era ansioso e apaixonado, resumindo sua vida a certa altura em seu diário como “a existência mais miserável na história do tempo”, como notou Langman.
Harris desenhava suásticas em seu diário; Klebold desenhava corações.
Com base no conteúdo de seus diários, o contraste entre os dois era grande.
Harris parecia se sentir superior a todos -ele escreveu certa vez: “Eu me sinto como Deus e gostaria que fosse, para que todos estivessem OFICIALMENTE abaixo de mim”- enquanto Klebold era um depressivo suicida que ficava cada vez mais furioso. “Eu sou um deus, um deus da tristeza”, ele escreveu em setembro de 1997, por volta de seu 16º aniversário.
Klebold também era paranoico. “Eu sempre fui odiado, por todos e tudo”, ele escreveu.
No dia dos ataques, sua camiseta dizia: “Ira”.

Surge um perfil dos atiradores
Columbine não foi a primeira escola onde ocorreu um massacre. Mas na época foi o pior e o primeiro a se desenrolar em grande parte ao vivo pela televisão.
O Serviço Secreto dos Estados Unidos e o Departamento de Educação americano logo começaram a estudar os atiradores em escolas. Em 2002, os pesquisadores apresentaram seus primeiros resultados: os atiradores em escolas, eles disseram, não apresentavam um perfil definido, mas a maioria deles era depressivo e se sentia perseguido.
A socióloga de Princeton, Katherine Newman, co-autora do livro de 2004, “Rampage: The Social Roots of School Shootings”, disse que jovens como Harris e Klebold não eram solitários -eles apenas não eram aceitos pelos garotos que importavam. “Obter atenção ao se tornar notório é melhor do que ser um fracasso.”
O Serviço Secreto descobriu que os atiradores geralmente contavam seus planos para outros garotos.
“Outros estudantes frequentemente até mesmo os incitavam”, disse Newman, que liderou um estudo encomendado pelo Congresso sobre os tiroteios em escolas. “Eles então assumem esse compromisso. Não é um surto repentino.”
Langman, cujo livro traça o perfil de 10 atiradores, incluindo Harris e Klebold, descobriu que nove sofriam de depressão e pensamentos suicidas, uma combinação “potencialmente perigosa”, ele disse. “É difícil impedir um assassinato quando os assassinos não se importam em viver ou morrer. É como tentar deter um homem-bomba.”
Na época, Columbine se tornou uma espécie de teste de Rorschach nacional gigante. Os observadores viam sua gênese em quase tudo: pais frouxos, leis frouxas de armas, educação progressista, cultura escolar repressiva, videogames violentos, medicamentos antidepressivos e rock and roll, para começar.
Muitos dos mitos de Columbine surgiram antes do término do massacre, à medida que rumores, mal-entendidos e pensamentos desejosos rodopiavam em uma câmera de eco entre as testemunhas, sobreviventes, autoridades e a imprensa.
A polícia contribuiu com a confusão ao falar aos jornalistas antes de conhecer os fatos -uma coletiva de imprensa convocada às pressas pelo xerife do condado de Jefferson naquela tarde produziu a primeira manchete: “25 mortos no Colorado”.
Algumas inverdades levaram horas para serem corrigidas, mas outras levaram semanas ou meses -às vezes anos- enquanto as autoridades promoviam relutantemente as correções.
O ex-repórter do “Rocky Mountain News”, Jeff Kass, autor de um novo livro, “Columbine: A True Crime Story”, disse que a polícia fez um jogo de charadas.
Em um caso, as autoridades do condado levaram cinco anos apenas para reconhecer que tinham se reunido em segredo após os ataques para discutir um depoimento juramentado de 1998 para um mandado de busca na casa de Harris -resultado de uma queixa feita contra ele pela mãe de um ex-amigo. Harris ameaçou o filho dela em seu site na internet e se gabava de que vinha fabricando bombas.
A polícia já tinha encontrado uma pequena bomba igual à descrita por Harris perto de sua casa -mas os investigadores nunca encaminharam a queixa a um juiz.
Ela também aparentemente não sabia que Harris e Klebold estavam sob condicional após terem sido presos em janeiro de 1998 por terem arrombado uma van e roubado equipamento eletrônico.
A busca finalmente ocorreu, mas apenas após o massacre.

Planejamento meticuloso
O que agora não se contesta -em grande parte devido aos diários dos assassinos, que foram divulgados nos últimos anos, é isto: Harris e Klebold mataram 13 pessoas e feriram 24, mas esperavam matar milhares.
A dupla planejou os ataques por mais de um ano, fabricando 100 bombas e persuadindo amigos a comprarem armas para eles. Após as 11 horas da manhã de 20 de abril, eles colocaram duas sacolas contendo bombas de tanque de propano no café lotado de Columbine e na cozinha, então se afastaram e esperaram.

Caso as bombas tivessem explodido, eles teriam matado virtualmente todos que estavam almoçando e teriam derrubado a biblioteca do segundo andar sobre o café, disse a polícia. Armados com uma pistola, um rifle e duas espingardas com cano serrado, a dupla planejava matar os sobreviventes que fugissem da carnificina.

Como um último ato terrorista, duas bombas de gasolina plantadas no Honda de Harris e no BMW de Klebold foram armadas aparentemente para matar os policiais, equipes de resgate, jornalistas e pais que corressem para a escola -quando a dupla já esperava estar morta.
A dupla estacionou os carros com uma distância de cerca de 100 metros entre eles no estacionamento dos estudantes. As bombas não dispararam.

Procurando respostas em casa
Desde 1999, muitas pessoas têm procurado os pais dos garotos em busca de respostas, mas uma transcrição do depoimento de 2003 aos pais das vítimas, ordenado pelo tribunal, permanece lacrado até 2027.
Os Klebolds falaram ao colunista David Brooks do “New York Times” em 2004, deixando a Brooks a impressão de ser “um casal bem educado, reflexivo, altamente inteligente”, que passava bastante tempo com o filho. Eles disseram que não tinham ideia do estado mental de Dylan e lamentavam não terem percebido que era suicida.
Os pais poderiam ter impedido o massacre? O agente especial do FBI encarregado da investigação disse ter “a maior compaixão” pelas famílias Harris e Klebold.
“Eles foram vilificados sem informação”, disse o agente especial aposentado Dwayne Fuselier para Cullen.
Cullen, que passou grande parte da última década estudando as evidências, também sente compaixão.
Ele notou que os pais de Harris “sabiam que tinham um problema -e achavam que estavam lidando com ele. Que tipo de pai vai pensar: ‘Bem, talvez Eric seja um assassino em massa’. Isso não acontece”.
Ele estudou atentamente os diários dos garotos apenas nos últimos dois anos. Entre as revelações: Eric Harris estava financiando o que poderia muito bem ser o maior ataque terrorista doméstico em solo americano com o salário de um emprego de meio expediente em uma pizzaria.
“Uma das coisas assustadoras é que o dinheiro foi um dos fatores limitantes aqui”, disse Cullen.
Caso Harris, na época com 18 anos, tivesse adiado os ataques em alguns anos e obtido um emprego melhor remunerado, ele disse, “ele poderia ser muito mais parecido com Tim McVeigh”, preparando bombas com fertilizante como as usadas em Oklahoma City em 1995. O fato de Harris ter executado o ataque quando o fez, ele disse, provavelmente salvou centenas de vidas.
“Seu salário limitado provavelmente limitou o número de pessoas mortas.”

* Marilyn Elias contribuiu com reportagem
Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/usatoday/2009/04/15/ult582u861.jhtm